“É muito provável que o trigo argentino impeça novas altas do trigo nacional daqui para frente”. A conclusão é do analista sênior da Consultoria Trigo & Farinhas, Luiz Carlos Pacheco, que comenta os primeiros efeitos do fim das chamadas “retenções” (impostos sobre exportações impostos pelo governo Cristina Kirchner).

“Com a economia desenfreada do governo anterior, os agricultores entenderam que era melhor segurar a mercadoria do que vendê-la. Com isto, os estoques finais das safras 2015/16 mostram algo ao redor de 16 milhões de toneladas de soja, 4 milhões de toneladas de milho e 2,5 milhões de toneladas de trigo, que deverão ser colocados no mercado a partir do início de janeiro próximo, fazendo (enorme) pressão sobre os preços destes produtos. Prova disto é que o fator Argentina foi maior do que o fator dólar nesta quarta”, explica.

O especialista conta que, por conta do fim das travas ao comércio exterior na Argentina, “os preços do trigo feed, em Rio Grande, por exemplo, já caíram de US$ 177/tonelada para US$ 162/t, e, ainda assim, somente para lotes de navio inteiro (30 mil tons ou mais). Sobre rodas no porto de Rio Grande, o preço caiu de R$ 620,00/t para R$ 595,00/tonelada e os negócios pararam”.

“Com relação ao trigo para moagem, os preços permanecem inalterados, o que muda é a qualidade e, com ela, a atribuição de valor. Mas, quem guardou trigo bom até agora, esperando valorização, está ficando desapontado porque o preço não sobe e poderá se desapontar ainda mais, dependendo do que acontecer com a desvalorização cambial na Argentina: o simples fato de haver grandes excedentes naquele país está pressionando os preços internacionais (especialmente Chicago) e poderá colocar produto no Brasil a preços mais baixos que os brasileiros, se a desvalorização chegar aos $ 14 pesos/dólar, como os técnicos locais estão apregoando”, aponta Pacheco.

“Hoje um produtor argentino recebe $ 1.500/tonelada em pesos, com o dólar a $ 9,75, o que daria algo ao redor de US$ 154/ton. Mas, o governo retirou o imposto de exportação (retenciones, de 23% sobre o valor FOB estivado de US$ 205, por exemplo, o que daria US$ 47,15/t). Os exportadores estão dispostos a dividir desvalorização atingir realmente $14/dólar, este produtor passaria a ter uma renda de $ 2.492 pesos/tonelada, ou seja 66% a mais do que ganhava antes do novo governo (o que explicaria a razão para reter produto)”, sustenta ele.

“Contudo, de outro lado, os restantes US$ 24 dólares seriam usados pelos exportadores para aumentar a competitividade dos produtos argentinos no mercado internacional, o que significa redução dos preços FOB. Na licitação da Argélia não foi preciso baixar tanto (a baixa foi de apenas US$ 7/t)”, lembra o analista.

O especialista explica qual seria o nível de rebaixamento dos preços do trigo argentino para ser imbatível no Brasil: “Os preços do trigo nacional posto moinho no Brasil, neste final de ano, estão ao redor de R$ 780,00/tonelada CIF nos dois principais estados moageiros (PR e RS). Convertidos em dólar equivalem a US$ 202/tonelada. Para concorrer com isto, o trigo argentino FOB teria que cair para algo ao redor de US$ 180,00/tonelada, contra os atuais US$ 188/tonelada, segundo a Bolsa de Comércio de Rosário ou US$ 182/t em Necochea e Bahia Blanca e US$ 197 no Up River, segundo Cosur, um corretor local. Digamos que rebaixem mais 2 dólares/t; com US$ 178/t os produtores argentinos ainda ganhariam mais (algo ao redor de $ 1.740/t ao câmbio de hoje) e inundariam o mercado brasileiro com trigo a preços abaixo dos atuais preços do trigo nacional. Se o peso se desvalorizar mais, os exportadores poderiam diminuir mais ainda o preço FOB e, mesmo assim, lucrar mais em pesos”.


Fonte: Agrolink